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À BEIRA DO MAR, À BEIRA DO FIM: O Brega de Orlando e a Cidade que Apaga Suas Próprias Histórias

Por: Nilson Carvalho | Papo de Artista Bahia


Existe um lugar em Salvador onde o mar não é apenas paisagem — é testemunha. Onde a brisa da Baía de Todos-os-Santos se mistura a risos, lágrimas, romances improváveis e à luta diária de mulheres que transformaram o próprio corpo em sustento, dignidade e sobrevivência. Esse lugar é o Brega de Orlando, cabaré à beira-mar na Praia Grande, Subúrbio Ferroviário, hoje ameaçado de desaparecer para dar passagem ao VLT.

Não se trata apenas do fechamento de um estabelecimento. Trata-se do apagamento de uma memória popular, de uma economia invisível que sempre sustentou famílias inteiras e de um espaço onde a hipocrisia social nunca teve vez. O Brega de Orlando não é só um brega. É símbolo. É resistência. É história viva de Salvador.


Enquanto o discurso do “progresso” avança com trilhos modernos e promessas de cidade vitrine, fica a pergunta que ninguém quer responder: progresso para quem? Para o turista que verá a paisagem da janela do trem ou para quem, há décadas, construiu sua vida naquele mesmo chão?

 

Ali, mulheres como Aruza e Galega falam sem rodeios. Não pedem piedade, pedem respeito. São mães, estudantes, chefes de família. Pagaram casas, cursos, motos. Sustentaram sonhos com o dinheiro conquistado ali, num espaço que sempre funcionou com regras claras, sem violência, sem exploração direta, sem participação nos programas. Um raro exemplo de organização onde o preconceito de fora sempre foi maior que qualquer conflito interno.

 

O poder público insiste em enxergar apenas paredes e não pessoas. O trilho passa onde o trem sempre passou — então por que agora a demolição é inevitável? A resposta parece simples demais para ser dita em voz alta: o problema não é o espaço, é quem ocupa o espaço.

 

O Brega de Orlando incomoda porque escancara uma verdade que a sociedade prefere varrer para debaixo do tapete: mulheres pobres, livres e donas do próprio corpo ainda são vistas como descartáveis. Não são convidadas à mesa do debate, não têm direito à manifestação, nem à proteção quando o “progresso” bate à porta com ordem de despejo.

 

Se cair o Brega de Orlando, não será só um prédio que vai ao chão. Cai junto um pedaço da alma do Subúrbio, da Salvador popular, da cidade que canta liberdade mas pratica exclusão.

 

A cidade que não respeita sua própria história está condenada a repetir suas injustiças.


 Comente, compartilhe e levante essa discussão.


📢 O silêncio também mata.

 

Foto: Internet


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