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Quando o mar fala mais alto: a Festa de Iemanjá transforma o Rio Vermelho em um grito de fé, cultura e resistência

Ainda era madrugada quando Salvador começou a pulsar diferente. Às 4h30, o presente principal saiu do galpão rumo à praia de Santana, no Rio Vermelho, anunciando que não se tratava apenas de mais um dia comum. Era 2 de fevereiro. Era dia de Iemanjá. Às 5h, a alvorada de fogos cortou o céu e despertou corpos, memórias e ancestralidades. Milhares de pessoas já sabiam: o mar ia falar — e a cidade inteira precisava escutar.

 

A tradicional Festa de Iemanjá tomou as ruas do bairro do Rio Vermelho e reuniu uma multidão de devotos, pescadores, turistas e moradores. Entre cortejos, cânticos, flores e oferendas, Salvador reafirmou algo que muitas vezes tentam apagar: a força viva das religiões de matriz africana e da cultura popular baiana.

 

Ao longo do dia, fiéis participaram dos rituais que atravessam gerações. O presente ficou no caramanchão até as 16h, quando seguiu para o mar em embarcações conduzidas pelos pescadores, acompanhados pela Iyalorixá do Terreiro Olufanjá, Mãe Nicinha de Nanã, e seus filhos de santo. Um momento de profundo simbolismo, onde fé não é espetáculo — é identidade, é respeito, é história viva.

 

Sob o olhar de um ativista social, a Festa de Iemanjá vai muito além do aspecto religioso. Ela movimenta a economia local, fortalece o trabalho dos pescadores, gera renda para ambulantes, artesãos e trabalhadores informais. É o povo ganhando espaço, sustento e visibilidade. Quando essa celebração é valorizada, o benefício é coletivo. Quando é atacada, silenciada ou tratada com preconceito, quem perde é a cidade inteira.

 

Para quem ainda não entende, é simples explicar: a Festa de Iemanjá é um patrimônio cultural imaterial. Ela educa sem livros, ensina sem sala de aula e forma consciência sem discurso acadêmico. É ali que se aprende sobre tolerância religiosa, respeito às diferenças e convivência entre crenças. Negar isso é negar a própria Bahia.

 

Mas é preciso dizer o que muitos preferem calar: enquanto a festa cresce em fé e beleza, o preconceito religioso ainda tenta caminhar nas sombras. Ataques simbólicos, desinformação e intolerância seguem ameaçando tradições que sustentam a identidade do povo negro e periférico. Celebrar Iemanjá também é um ato político. É dizer que nossas raízes não serão arrancadas.

 

O Rio Vermelho virou mar de gente porque Iemanjá representa acolhimento, proteção e esperança. Em tempos de tanta violência, ódio e desigualdade, o povo corre para o mar em busca de paz. E isso diz muito sobre o que está faltando em terra firme.

 

Respeitar a Festa de Iemanjá é respeitar o povo. É proteger a cultura. É defender a liberdade religiosa. É entender que tradição não é atraso — é resistência.

 

Comente, compartilhe e levante essa discussão. Quando a fé do povo é silenciada, a intolerância avança. O silêncio também mata.


Por: Nilson Carvalho


1 comentário


JOSUE RAMIRO RAMALHO - Escrito
há 4 minutos

Saudar a rainha do mar é saudar a voz do povo. Há sincronia entre os guerreiros e Yemanjá é a guerreira do mar acolhida pelo povo guerreiro da terra. Importa sim o sincretismo religioso. Importa sim a fé inabalável dos assemelhados. A Bahia eleva ao mais alto grau o canto e a fé de toda essa gente. Dois de fevereiro jamais passará despercebida por todos. Parabéns povo baiana! Parabéns povo Africano! Parabéns Yemanjá!

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