Do Serviço Público ao Axé Ancestral: Mãe Carmen do Gantois, a Mulher que Uniu Ética, Fé e Diálogo e Deixou um Legado Eterno à Bahia
- Nilson Carvalho

- 27 de dez. de 2025
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Por: Nilson Carvalho
A Bahia amanheceu mais silenciosa. Não por falta de voz, mas por respeito a uma mulher que falou a vida inteira com atitudes. Mãe Carmen do Gantois partiu aos 98 anos, deixando um legado que atravessa o serviço público, a espiritualidade de matriz africana e a luta diária contra o preconceito. Sua história não é apenas religiosa: é social, humana e profundamente transformadora.
Antes de ser ialorixá, antes do axé, do branco sagrado e do comando espiritual de um dos terreiros mais respeitados do Brasil, Carmen Oliveira da Silva foi servidora pública exemplar. Por mais de 30 anos, atuou no Tribunal de Contas do Estado da Bahia com ética, responsabilidade e humanidade. Colegas a descrevem como firme, doce, competente e justa. Uma mulher que cuidava de números sem jamais esquecer das pessoas.
E talvez esteja aí uma grande lição para o povo: fé e responsabilidade social não se anulam — se completam. Mãe Carmen mostrou que é possível servir ao Estado e ao sagrado, ao mesmo tempo, sem usar um para benefício próprio, mas ambos para o bem coletivo.
Somente em 2002, após o chamado dos orixás, ela assumiu o trono do Terreiro do Gantois, dando continuidade a uma linhagem histórica iniciada por Mãe Menininha, sua mãe, símbolo mundial do candomblé. Com serenidade, diálogo e sabedoria, Mãe Carmen se tornou guardiã de uma herança ancestral que ajudou a formar a identidade cultural de Salvador e do Brasil.
Sob sua liderança, o Gantois não se fechou em muros. Pelo contrário: abriu portas. Recebeu pesquisadores, artistas, líderes religiosos de outras crenças, turistas, estudantes e autoridades. Combateu o preconceito com aquilo que mais incomoda a intolerância: conhecimento. Ao permitir visitas guiadas, memoriais e ações culturais, mostrou que o candomblé não é ameaça — é raiz.
E isso gera benefícios diretos ao povo. Preservar terreiros é preservar história, turismo cultural, educação, identidade e respeito. Quando uma ialorixá dialoga com o mundo, ela protege sua comunidade, fortalece a autoestima do povo negro e ensina que diversidade não divide, soma.
O reconhecimento veio de todos os lados: artistas, autoridades, intelectuais, o presidente da República, governadores e prefeitos. Mas o maior reconhecimento está nas milhares de pessoas que encontraram no Gantois acolhimento, orientação espiritual e dignidade.
Mãe Carmen também nos deixa um alerta: a violência foi, para ela, um dos maiores problemas de Salvador. Uma líder espiritual que viveu quase um século enxergava com clareza que sem cuidado com as pessoas, não há cidade que se sustente.
Sua partida encerra um ciclo, mas seu exemplo permanece vivo. Em tempos de intolerância, radicalismo e esquecimento da ancestralidade, Mãe Carmen foi ponte. Entre gerações, religiões, ideologias e classes sociais.
Ela não viveu de saudade nem de medo. Viveu o presente, com ética, simplicidade e amor ao próximo. E isso, talvez, seja o maior axé que ela nos deixa.
Que Mãe Carmen do Gantois siga sendo luz, raiz e resistência. Se esse legado também toca você, compartilhe, comente e ajude a manter viva a memória de quem transformou fé em cuidado e diálogo em força coletiva.
Foto: Internet







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