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“Santo Antônio Além do Carmo: O Paraíso Que Vira Pressão – Entre o Sonho do Verão e o Medo de Ser Expulso”


Por: Nilson Carvalho – Papo de Artista Bahia

 

O Santo Antônio Além do Carmo, com suas ladeiras charmosas e casarões que carregam séculos de histórias, está prestes a viver mais um verão daqueles: ruas lotadas, turistas de todo canto, artistas circulando, bares fervendo e a vida pulsando no compasso da Bahia. Mas, por trás das cores e da alegria, existe um conflito cada vez mais gritante — o choque entre a euforia dos visitantes e o aperto no peito de quem mora ali desde quando as ruas eram quase silenciosas.

 

As amigas Zilda Farias e Maya Lamarck sabem bem o que significa essa transformação. Elas correm contra o tempo para inaugurar o Carmo e Cores, um bar LGBT que já chega com a promessa de ser um ponto de resistência, representatividade e acolhimento. Um sonho realizado para elas — mas também um sinal claro do novo rumo do bairro. “Nosso lugar de curtir sempre foi o Santo Antônio. Ter um bar aqui é fazer parte da história”, diz Zilda, com brilho nos olhos.

 

E é justamente isso que atrai tanta gente: história, charme, diversidade e a sensação de que ali existe um pedaço vivo da alma de Salvador.

 

O problema? Quando muita gente chega, muita gente precisa sair.

 

O Preço da Fama: Quando o Bairro Fica Pequeno Para Tanta Gente

 

Com a aproximação do verão e do Carnaval — período em que o bairro parece respirar numa velocidade própria — as ruas, já tão estreitas, tornam-se apertadas. Bares sem cadeira, calçadas tomadas, turistas por todos os lados. Um cenário lindo de ver… mas cansativo de viver.

 

A disputa entre os que amam a festa e os que desejam silêncio aumenta. O Ministério Público precisou intervir: proibiu trios elétricos, limitou blocos e restringiu público. Medidas necessárias para evitar um colapso. O objetivo? Fazer com que moradores e visitantes convivam sem guerra declarada — embora nem sempre isso funcione.

 

Medo Que Cresce: “Até tem policiamento, mas…”

 

Seu Adalberto, 64 anos, morador há meio século, resume bem o sentimento de muitos:

 

“Sou velho e gosto de farra. O barulho não me incomoda, mas a insegurança sim.”

 

Ele conta que recentemente um senhor foi assaltado em plena luz do dia, bem em frente à sua porta. A presença policial existe, mas não acompanha o crescimento do fluxo. E quem vive ali sabe: segurança não deveria ser luxo. Deveria ser básico.

 

Especulação Imobiliária: O Inimigo Silencioso

 

Se por um lado o bairro atrai investidores, por outro expulsa histórias.

Entre 2010 e 2022, a região perdeu quase 24% dos moradores. Um esvaziamento que não tem nada de natural. Tem nome e sobrenome: especulação imobiliária.

 

Nos anos 2000, cerca de 40 casas foram vendidas a preços irrisórios para um grupo comercial que prometia um shopping a céu aberto — projeto barrado pelo Iphan, por se tratar de área tombada. As casas seguem nas mãos do grupo, enquanto moradores antigos continuam recebendo propostas que vão de Paulistas a alemães.

 

Placas em inglês, como house for sale, aparecem em fachadas emblemáticas. É o Santo Antônio virando vitrine para o mundo — mas uma vitrine que deixa para trás quem fez o bairro ser o que é.

 

Seu Adalberto, firme e teimoso como as raízes daquele chão, já respondeu a todos:

 

“Daqui, só saio direto para o caixão.”

 

E ele fala por muitos.

 

E o Povo Ganha o Quê?

 

A explosão turística pode trazer empregos, arte, movimento e renda para muita gente.

Mas pode também empurrar os moradores para longe, aumentar o custo de vida, intensificar a insegurança e transformar o bairro em mais um cartão-postal sem alma, desses que só servem para turista fazer foto.

 

A pergunta que fica é simples e urgente:


Quem está de fato sendo beneficiado com essa mudança — o povo, os empreendedores locais ou apenas os grandes investidores?

 

Se o poder público não assumir seu papel, o Santo Antônio pode perder exatamente aquilo que tornou o bairro mágico: sua gente.

 

 

“Santo Antônio Além do Carmo não pode virar só cenário — precisa continuar sendo lar. Compartilhe para que essa luta não se cale.”

 

Foto: Internet


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