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QUANDO A ARTE NÃO APAGA O CRIME: A MORTE DO “REI DO BOLERO” E A FERIDA ABERTA DO FEMINICÍDIO NO BRASIL


Por: Nilson Carvalho – Papo de Artista Bahia

 

A morte de Lindomar Castilho, aos 85 anos, reacende um debate que o Brasil insiste em empurrar para debaixo do tapete: é possível separar o artista do homem quando o crime cometido foi um feminicídio? Conhecido como o “Rei do Bolero”, Lindomar marcou gerações com canções carregadas de emoção, mas também deixou uma cicatriz profunda e irreparável ao assassinar a ex-esposa, a cantora Eliane de Grammont, em 1981, em pleno palco.

 

Não se trata aqui de apagar sua importância musical nem de negar seu espaço na história da música popular brasileira. Trata-se de não romantizar a violência e, principalmente, de não silenciar a dor das vítimas, algo que ainda acontece com frequência em uma sociedade que perdoa homens famosos com mais facilidade do que protege mulheres.

 

Décadas depois do crime, quem deu a palavra final foi a filha do cantor, Lili De Grammont. Em um depoimento duro, honesto e profundamente humano, ela afirmou que o pai “morreu em vida” no dia em que matou sua mãe. Uma frase forte, que desmonta qualquer tentativa de glamourizar o agressor e escancara o impacto devastador que a violência doméstica causa não só na vítima direta, mas em toda a família.

 

Lindomar cumpriu parte da pena, saiu da prisão e tentou reconstruir a carreira. A Justiça dos homens foi aplicada. Mas a Justiça da consciência coletiva ainda falha quando transforma criminosos em lendas intocáveis e reduz mulheres assassinadas a notas de rodapé. Eliane de Grammont não foi apenas “a ex-mulher de um cantor famoso”. Foi artista, mãe, mulher e vítima de um sistema que ainda hoje falha em proteger quem denuncia, quem tenta sair de relações abusivas, quem ousa viver em liberdade.

 

Para o povo, a reflexão é urgente e necessária. Qual mensagem estamos passando quando exaltamos o talento sem confrontar o crime? O benefício social não está em cancelar histórias, mas em contá-las por inteiro. Só assim a arte pode cumprir seu verdadeiro papel: provocar consciência, gerar debate e impedir que a violência se repita como um ciclo naturalizado.

 

O caso Lindomar Castilho serve de alerta. O Brasil segue entre os países que mais matam mulheres no mundo. E enquanto tratarmos o feminicídio como “tragédia pessoal” e não como problema estrutural, continuaremos enterrando talentos, sonhos e vidas.

 

A morte do “Rei do Bolero” encerra uma trajetória, mas não encerra a responsabilidade social de lembrar que sucesso, fama e talento nunca podem servir de absolvição moral para a violência.

 

Que essa história não seja compartilhada apenas pela curiosidade da morte, mas pela urgência da reflexão. Comente, compartilhe e ajude a romper o silêncio: nenhuma arte vale mais do que a vida de uma mulher.

 

Foto: Internet  


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