O Samba Volta Pra Casa: Carnaval de Salvador Resgata Raízes, Gera Renda e Levanta um Alerta Social
- Nilson Carvalho

- há 11 horas
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Quando o surdo bate e o pandeiro responde, não é só música — é memória, identidade e resistência. Em 2026, o Carnaval de Salvador abre alas para um reencontro histórico: o samba, nascido na Bahia e espalhado pelo mundo, volta ao centro da maior festa de rua do planeta com a homenagem “O Samba Nasceu Aqui”. Mais do que um espetáculo, o gesto carrega um recado político, cultural e social que merece ser ouvido com atenção.
A abertura oficial acontece no dia 12 de fevereiro, no Circuito Osmar (Campo Grande), com o espetáculo “A Rota do Samba”, dirigido por Larissa Luz e estrelado por nomes que representam a alma do ritmo: Nelson Rufino, Juliana Ribeiro, Ju Moraes, Mariene de Castro e as Ganhadeiras de Itapuã. O samba completa 110 anos e retorna às origens não como nostalgia, mas como afirmação de pertencimento.
Sob o olhar de quem vive a arte e sente a rua, Larissa Luz destaca que o espetáculo vai além do palco. Ele ocupa o espaço público, dialoga com os trios e reconecta o povo com a história que muitas vezes foi silenciada. O Recôncavo Baiano, berço de compositores que ajudaram a construir o samba nacional, ganha protagonismo. E junto com ele, vêm os desdobramentos do ritmo: samba-reggae, pagodão e novas expressões da música negra baiana.
Mas é preciso ir além do encantamento.
O Carnaval de Salvador movimenta cifras gigantescas: a expectativa é de 1,2 milhão de turistas, R$ 2,6 bilhões injetados na economia e cerca de 250 mil empregos diretos e indiretos. Números que impressionam, mas que levantam uma pergunta essencial: esse dinheiro chega de verdade ao povo?
A prefeitura anuncia avanços, especialmente para os ambulantes — transporte público gratuito, pontos de hidratação, recarga de celular e melhorias na segurança do trabalho. São passos importantes. Porém, quem vive o Carnaval na pele sabe que ainda há desafios: longas jornadas, insegurança, informalidade e pouco reconhecimento para quem sustenta a festa com o próprio suor.
Outro ponto que merece reflexão é o fortalecimento do Carnaval do Centro, no Campo Grande, uma demanda antiga da população. A presença de grandes artistas fora do eixo Barra/Ondina descentraliza a festa, democratiza o acesso e valoriza territórios historicamente esquecidos. Isso é avanço. Mas precisa ser política contínua, não apenas discurso de ocasião.
A programação extensa, com 700 atrações nos circuitos e 520 nos palcos, celebra a diversidade musical da Bahia: axé, samba, reggae, pagodão, guitarra baiana, R&B e música afro-brasileira. Destaque para palcos dedicados às mulheres, ao samba e às tradições, reforçando que cultura também é inclusão e representatividade.
Como bem lembrou Armandinho Macedo, manter viva a história do Carnaval é uma responsabilidade coletiva. Blocos afro, artistas populares e trabalhadores da cultura precisam mais que aplausos: precisam de respeito, investimento e espaço real.
Celebrar o samba é reconhecer que ele nasceu do povo e para o povo. Se o Carnaval esquecer isso, vira apenas negócio. Se lembrar, continua sendo revolução cultural.
Porque festa boa não é só a que lota hotéis,
é a que gera dignidade, preserva a memória e respeita quem constrói a alegria.
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Cultura que não escuta o povo também silencia — e o silêncio também mata.
✍️ Por: Nilson Carvalho
Jornal Papo de Artista Bahia
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