Negada por ser “parda demais ou de menos”? A dor invisível de quem só queria estudar para salvar vidas
- Nilson Carvalho
- 5 de ago.
- 2 min de leitura

Por: Jornalista Nilson Carvalho – Embaixador dos Direitos Humanos e Defensor do Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro
Quando a cor da pele decide mais que a capacidade: o caso de Samille
Imagine largar tudo por um sonho. Largar o emprego, mudar de estado, deixar a estabilidade de lado só para seguir uma vocação: ser médica e cuidar de vidas. Agora imagine ser arrancado desse sonho a duas provas de concluir o semestre. Não por falta de esforço.
Foi isso que aconteceu com Samille Ornelas, uma jovem baiana, negra e filha da escola pública, aprovada em Medicina pela cota racial na Universidade Federal Fluminense (UFF). Mesmo com liminar judicial garantindo sua matrícula, ela foi desligada da instituição no meio do caminho. Sozinha. Silenciada. Apagada do sistema como se nunca tivesse existido.
Uma história que escancara a fragilidade de um sistema que deveria proteger
Samille foi chamada de impostora. Foi julgada por um vídeo, não por sua história. Mesmo tendo cursado Biomedicina com cota racial, mesmo apresentando laudos antropológicos, fotos antigas, histórico de racismo no mercado de trabalho... ainda assim, não foi "reconhecida".
E o que dói mais? Ela não é contra o sistema de cotas. Pelo contrário: ela acredita nele. Mas exige respeito, justiça e critério. Porque o que aconteceu com ela pode estar acontecendo com muitas outras pessoas em silêncio.
O olhar de um ativista social
O caso de Samille vai muito além de uma vaga em Medicina. Ele escancara uma realidade perversa e contraditória: quem sempre foi invisível agora precisa provar que é o que o sistema nunca quis ver.
É preciso dizer com todas as letras: política de cotas é reparação, não favor. É direito conquistado com muita luta, suor e sangue derramado por gerações. Quando essa política é mal aplicada, não só fere a vítima — mas toda uma luta histórica por igualdade racial.
As comissões de heteroidentificação precisam existir, sim, mas com responsabilidade, estrutura, sensibilidade e principalmente: com critérios humanos e não mecânicos. Porque estamos lidando com histórias de vida, não com algoritmos de padrão estético.
Quando o racismo vem disfarçado de “técnica”
Samille hoje está de volta aos estudos, refazendo tudo do zero, tentando acreditar que seu sonho ainda é possível. Mas e as cicatrizes emocionais? E o medo de ser rejeitada novamente? E a dor de andar na rua achando que alguém vai apontar o dedo e dizer: “você não é negra o suficiente”?
Essa é a crueldade silenciosa do racismo estrutural: ele não grita, mas cala. Ele não bate, mas destrói por dentro.
REFLITA E COMPARTILHE
"Quantas outras Samilles ainda terão seus sonhos rasgados, até que o Brasil entenda que justiça social começa com empatia?"
Leia, compartilhe, discuta. Essa história não é só de Samille. É um alerta para todos nós.
Foto: Internet
Comentários