🏺🔥 QUASE 3 MIL ANOS DEPOIS, A HISTÓRIA É REESCRITA: TRÊS REIS ASSÍRIOS TERIAM SIDO APAGADOS DOS REGISTROS OFICIAIS
- Nilson Carvalho

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Novas análises de antigas tábuas de argila e inscrições cuneiformes indicam que três governantes da antiga Assíria tiveram reinados breves e podem ter sido deliberadamente retirados da memória oficial
Por: Nilson Carvalho
“Quem se cala diante do risco, assume a responsabilidade pelo dano.”
Por quase três mil anos, uma parte da história da antiga Assíria permaneceu escondida entre inscrições em argila, monumentos e nomes parcialmente apagados. Agora, uma nova análise de documentos antigos está colocando em dúvida uma certeza que pesquisadores mantiveram durante décadas: a de que a tradicional Lista de Reis Assírios apresentava uma sequência completa dos governantes.
O estudo, publicado no Journal of Cuneiform Studies pelos pesquisadores Alexander Johannes Edmonds, da Universidade de Münster, na Alemanha, e Eckart Frahm, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, identificou evidências relacionadas a três governantes que não aparecem na tradicional lista de reis.
A descoberta não é apenas uma questão de nomes antigos. Ela revela como poder, disputas políticas e a própria tentativa de controlar a memória podem influenciar aquilo que chega até as gerações futuras.
🏺 UMA HISTÓRIA QUE PARECIA COMPLETA — MAS NÃO ERA

Durante mais de um século, estudiosos consideraram relativamente bem estabelecida a sequência dos reis da Assíria no período Neoassírio.
Uma das principais fontes utilizadas nessa reconstrução histórica é justamente a Lista de Reis Assírios, registrada em antigas tábuas de argila utilizando a escrita cuneiforme.
O problema é que o documento pode não ter contado toda a história.
Segundo a nova pesquisa, a lista teria apresentado uma versão idealizada da monarquia, priorizando governantes que permaneceram no poder e foram reconhecidos posteriormente.
Isso significa que reis derrotados, depostos ou que permaneceram pouco tempo no trono poderiam simplesmente desaparecer da narrativa oficial.
“A história também pode ser encontrada naquilo que alguém tentou apagar.”
É justamente aí que a descoberta ganha força.
👑 TRÊS REIS QUE DESAPARECERAM DA LISTA
Os pesquisadores apontam evidências relacionadas a Aššur-uballiṭ, Tiglath-pileser e Shalmaneser.
Os três teriam governado por períodos muito curtos, inferiores a dois anos, e posteriormente perdido o poder.
As evidências também indicam que pelo menos dois deles tiveram seus nomes apagados ou substituídos em registros posteriores.
Mais do que simples invasores ou pretendentes externos, os indícios apontam que esses personagens estavam ligados à própria estrutura de poder assíria e contavam com apoio de integrantes da elite.
A história, portanto, parece ter sido muito mais turbulenta do que a sequência tradicional de reis fazia imaginar.
📜 UMA TÁBUA DE ARGILA GUARDAVA UMA PISTA

Uma das pistas mais importantes envolve Tiglath-pileser.
A evidência surgiu de uma antiga tábua de argila encontrada em Nínive, cidade histórica situada no atual Iraque e mencionada na Bíblia.
O documento registra uma concessão de terras feita por um rei e é datado de 762 a.C.
A tábua já era conhecida e havia sido publicada há mais de 125 anos. Porém, havia um problema: os governantes anteriormente associados ao documento não poderiam ter emitido aquela concessão naquele ano.
Uma nova análise da escrita cuneiforme levou o pesquisador Eckart Frahm a propor que o documento provavelmente havia sido produzido por outro Tiglath-pileser, até então desconhecido pela historiografia tradicional.
Uma antiga peça de argila, portanto, acabou funcionando como uma espécie de testemunha silenciosa de uma disputa pelo poder.
⚔️ REBELIÃO, ECLIPSE E INSTABILIDADE
O estudo relaciona esse governante a uma rebelião iniciada em 763 a.C., durante o reinado de Aššur-dān III.
Naquele período, a sociedade assíria enfrentava forte instabilidade. Registros também apontam para uma epidemia em 765 a.C.
E havia ainda um acontecimento que poderia ter enorme significado político e religioso para os assírios: um eclipse solar.
Para aquela sociedade, um fenômeno dessa dimensão poderia ser interpretado como um sinal relacionado ao destino do rei.
Segundo a reconstrução apresentada no estudo, o novo Tiglath-pileser teria tomado o poder na cidade de Aššur, mas acabou derrotado pelas forças de Aššur-dān III.
Seu reinado teria sido breve — mas sua existência deixou marcas suficientes para ser recuperada quase três mil anos depois.
🗿 UM NOME APAGADO NA PEDRA
Outro personagem identificado é Shalmaneser, que provavelmente teria assumido o trono no final de 747 a.C.
Pouco mais de um ano depois, em 745 a.C., teria perdido o poder para Tiglath-pileser III.
Uma das pistas está em uma antiga estela, um monumento de pedra.
O detalhe impressiona: o nome de Shalmaneser foi substituído pelo de Tiglath-pileser III, mas parte do nome original permaneceu visível.
Para os pesquisadores, essas marcas podem funcionar como uma espécie de “rasura histórica” — sinais de que alguém tentou modificar a memória registrada no monumento.
🔎 O TERCEIRO REI E UMA NOVA PERGUNTA
O terceiro governante é Aššur-uballiṭ, que teria governado por um curto período por volta de 913 a 912 a.C.
Seu nome aparece em uma inscrição relacionada à restauração de um recipiente ritual de prata dedicado ao deus Aššur.
O estudo propõe que ele tenha perdido o trono para Adad-nārārī II.
A descoberta não muda a cronologia assíria estabelecida a partir de 911 a.C., mas abre uma pergunta muito maior:
quantas outras pessoas podem ter exercido o poder e desaparecido dos registros oficiais?
🧩 QUANDO A HISTÓRIA NÃO CONTA TUDO
Talvez a maior importância dessa descoberta esteja justamente nessa pergunta.
A pesquisa sugere que a política da antiga Assíria não era marcada apenas por sucessões organizadas de pai para filho.
Havia rebeliões, disputas dentro da família real, alianças, deposições e batalhas pelo poder.
E quando os vencedores assumiam o controle, também poderiam assumir o controle sobre aquilo que seria lembrado.
Isso traz uma reflexão que ultrapassa milhares de anos:
quem controla os registros também pode influenciar a maneira como o futuro enxerga o passado.
🌎 O PASSADO AINDA TEM MUITO A REVELAR
A descoberta não significa que toda a história conhecida da Assíria esteja errada.
Pelo contrário. Ela mostra como a ciência histórica funciona: novas evidências podem mudar interpretações antigas sem destruir tudo o que já foi descoberto.
Uma inscrição esquecida, uma marca parcialmente apagada ou uma pequena tábua de argila pode ser suficiente para fazer pesquisadores voltarem no tempo e perguntarem:
“Quem ficou de fora dessa história?”
E essa talvez seja a lição mais poderosa desse achado.
O passado não fala apenas através dos monumentos que sobreviveram. Às vezes, ele fala justamente através das marcas deixadas por aqueles que tentaram apagar alguma coisa.
🔥 UMA REFLEXÃO PARA O PRESENTE
Se três reis puderam desaparecer da memória oficial durante quase três mil anos, fica uma pergunta para o nosso próprio tempo:
Quantas histórias importantes ainda estão escondidas, esperando que alguém tenha coragem de procurar as evidências?
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Fotos: Internet




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