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O Veredito do Silêncio.



​               Quem foi que homologou o direito sobre o não direito de chorar? Consultaram, por acaso, as sobreviventes de abortos espontâneos? Eu, certamente, não fui consultada. Mas as leis, percebo agora, são quase sempre gestadas na ausência de quem as sente na pele. As regras que estabelecem o teto do salário mínimo não são escritas por pais e mães  de cinco filhos que pagam aluguel; as leis de proteção ambiental não saem das mãos de quem vive em áreas costeiras, de quem padece de doenças crônicas ou de quem protege o chão ancestral como indígenas e quilombolas. Não. As normas são ditadas por "outros". E quem sobrar que se ajuste a elas.


​              Não seria este o caso do chamado luto desautorizado? Aquele que, discretamente, meus pais e amigos tentam me impor como uma túnica apertada demais para o meu corpo?


​            — É assim mesmo, filha. Deus sabe o que faz, você não deve chorar — dizia minha mãe, com uma serenidade que desconhecia o tamanho da dor que me cortava por dentro.

​             No mesmo instante, meu pai, sem saber o que dizer a uma filha de apenas dezessete anos, pousou as mãos sobre meus ombros. Ele olhou fixamente para mim e sentenciou:


​          — Não há por que ficar chorando. Você é muito nova. Vai te outros filhos !

​         Vi, naquele momento, que a frieza dele era o reflexo de um mundo que me via apenas como mais uma "mãe dos sem-rosto", uma genitora de histórias interrompidas. Para eles, eu deixava circular apenas um vácuo do que sucumbira há vinte e duas semanas. Eles não viam a paleta dos meus sonhos, as matrizes de cores que outrora dançavam no meu horizonte, entre o azul infinito dos céus e o rosa terno do amanhecer.


​         Tudo o que eu via, e eles não ,  era aquele corpo preenchendo o macacão azul ou o pequeno body de florzinhas rosas. Peças que agora aperto contra o peito. Sinto saudade do que não posso tocar, mas, ao pressionar o tecido contra a pele, sinto-me tocada por ele — ou por ela. Não sei. O que sei é que cada lágrima que rola sobre meu rosto rompe o represamento do silêncio. Sou mais uma a soluçar o choro do não direito de chorar.

​           Nesta casa, não há velas acesas, não há visitas, cafezinho ou bolachas sobre a mesa. Dizem que, para o que eu perdi, não há luto.


​        entretanto, enquanto eles guardam as xícaras e apagam as luzes, a minha dor se recusa a ser burocrática. Eles tentam organizar o meu futuro como se o vazio de agora fosse uma página em branco, mas não entendem que o futuro se desvinculou de mim no momento em que a vida que eu carregava deixou de habitar o presente.


​           A cultura do silêncio é vasta, mas é incapaz de sufocar o "não" que nasce na garganta de quem questiona. Ao me proibirem o luto, eles tentam apagar a existência do que foi real sob meu coração. Mas o meu choro é político. É o protesto contra a desautorização de uma ausência que, para mim, é a presença mais devastadora que já senti. Eles podem negar o velório, mas não podem impedir que o meu corpo seja o altar dessa memória. O meu luto não pede permissão; ele existe porque aquela vida, mesmo sem história para o mundo, escreveu em mim o seu capítulo mais profundo, onde outras páginas sempre se reescreverão em respeito a primeira. Ainda que tenha que lembrar  chorar, como outras e outras...


Claudionor Pereira de Lima.


Sociólogo, Teólogo e Escritor. 

1 comentário


Gostei!!! Colega Claudionor. B
há 23 minutos

Gostei colega Claudionor. Muito bem. Achei muito bonito messsssmo!

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