⚠️ “O SURTO PODE ACONTECER COM QUALQUER UM DE NÓS”: PSIQUIATRA ALERTA PARA O PERIGO DE TRANSFORMAR A DOR MENTAL EM ESPETÁCULO
- Nilson Carvalho

- há 15 horas
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Esdras Cabus Moreira explica o que pode estar por trás de uma crise psiquiátrica, questiona a exposição de pessoas em sofrimento nas redes sociais e defende que o cuidado comece antes que a situação chegue ao limite
Por Nilson Carvalho
Uma pessoa grita no meio da rua. Outra parece completamente desconectada da realidade. Alguém fala coisas sem sentido, demonstra medo, raiva ou desespero. Em poucos segundos, celulares são levantados. A cena é filmada. Em minutos, pode estar nas redes sociais. Em poucas horas, milhares de pessoas podem estar comentando, julgando e compartilhando.
Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece:
E se aquela pessoa estivesse vivendo uma crise de saúde mental?
É justamente sobre essa fronteira entre sofrimento, doença, preconceito, exposição e cuidado que o psiquiatra Esdras Cabus Moreira chama atenção.
Em entrevista, o especialista explica que o chamado “surto” é uma expressão popular e pode representar diferentes situações de intensa desorganização emocional ou psíquica. Segundo ele, uma mudança abrupta no comportamento pode aparecer depois de períodos de angústia, estresse, desconfiança, cansaço ou outras condições que precisam ser avaliadas profissionalmente.
“O surto, no sentido dessa modificação de que a gente falou, pode acontecer com qualquer um de nós.”
A declaração desmonta uma ideia perigosa: a de que uma crise psiquiátrica acontece somente com “os outros”.
🧠 ANTES DA EXPLOSÃO, PODE EXISTIR UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM VIU
Uma das questões mais importantes levantadas pelo psiquiatra é que, muitas vezes, aquilo que o público enxerga como uma explosão repentina pode ter sido precedido por sinais que passaram despercebidos.
Angústia crescente, desconfiança, alterações emocionais, exaustão e dificuldades para lidar com situações de estresse podem fazer parte desse processo.
É como uma panela sob pressão: quem vê apenas o momento da explosão não necessariamente conhece tudo aquilo que aconteceu antes.
“Geralmente há um processo: a pessoa começa a ficar mais angustiada, mais desconfiada, e chega um momento em que isso eclode de forma mais intensa.”
Isso não significa que toda alteração de comportamento seja um transtorno mental. Nem que toda crise tenha a mesma causa.
Significa que uma situação grave precisa ser compreendida antes de ser julgada.
📱 QUANDO O SOFRIMENTO VIRA CONTEÚDO PARA VIRALIZAR
Existe hoje um comportamento que se tornou quase automático: diante de uma cena incomum, muitas pessoas sacam o celular.
O problema começa quando a câmera substitui a humanidade.
Uma pessoa em crise pode não estar em condições de consentir com uma gravação, compreender o alcance daquela exposição ou defender sua própria privacidade.
Mesmo quando o vídeo parece “engraçado”, “absurdo” ou “chocante”, existe uma pessoa por trás daquela imagem.
Ela tem família. Tem história. Tem dignidade.
E uma gravação publicada na internet pode permanecer circulando muito depois que a crise terminou.
Por isso, a pergunta deveria mudar:
❌ “Como faço esse vídeo viralizar?”
Para:
✅ “Como posso ajudar essa pessoa com segurança?”
🚨 CRISE PSIQUIÁTRICA NÃO É SINÔNIMO DE VIOLÊNCIA
Outro ponto que precisa ser tratado com responsabilidade é a associação automática entre sofrimento mental e violência.
O psiquiatra menciona que determinadas situações podem envolver comportamentos agressivos ou perda importante do controle dos impulsos, especialmente em alguns quadros e circunstâncias. Mas isso não significa que toda pessoa com transtorno mental seja agressiva ou perigosa.
Generalizar é alimentar o preconceito.
Uma pessoa em sofrimento precisa ser avaliada de acordo com o que está acontecendo naquele momento, levando em consideração sua segurança, a segurança de outras pessoas e a necessidade de atendimento especializado.
O olhar correto não é o do julgamento.
É o do cuidado.
⚠️ O QUE FAZER QUANDO UMA PESSOA ESTÁ EM CRISE?
Em uma situação de crise, a população deve evitar atitudes que possam aumentar a tensão.
Entre os cuidados básicos estão:
manter distância segura quando houver risco;
evitar provocações, gritos ou confrontos;
não tentar “vencer uma discussão” com alguém que esteja desorganizado;
evitar cercar a pessoa;
não filmar ou compartilhar a situação como entretenimento;
procurar ajuda profissional ou serviço de emergência quando houver risco imediato.
Segurança vem antes da curiosidade.
E, principalmente, não cabe ao cidadão comum tentar fazer sozinho aquilo que exige avaliação de profissionais capacitados.
🏥 INTERNAÇÃO: RETROCESSO OU RECURSO DE CUIDADO?
A discussão sobre internação psiquiátrica também aparece no debate.
Existe uma visão de que qualquer internação representaria necessariamente um fracasso ou um retrocesso. Mas a realidade é mais complexa.
Em determinadas situações graves, quando existe risco significativo ou impossibilidade de manejo adequado fora de um ambiente protegido, uma avaliação especializada pode indicar a necessidade de cuidados intensivos.
Isso não significa defender a internação indiscriminada.
Significa reconhecer que cada caso precisa ser avaliado individualmente.
O desafio está justamente em garantir que a pessoa receba o cuidado adequado, no momento adequado, com respeito à sua dignidade e aos seus direitos.
💔 QUANDO A FAMÍLIA TAMBÉM CHEGA AO LIMITE
Existe ainda uma parte dessa história que quase nunca aparece nos vídeos das redes sociais: a família.
Pais, mães, irmãos, companheiros e filhos podem passar meses ou anos tentando lidar com alguém em sofrimento grave sem saber exatamente o que fazer.
Há medo.
Há cansaço.
Há culpa.
Há falta de informação.
E, muitas vezes, há também dificuldade para conseguir atendimento especializado.
Por isso, falar sobre saúde mental não pode significar apenas discutir o comportamento de quem está em crise.
É preciso falar também sobre a rede de cuidado, o acesso ao tratamento e o apoio às famílias.
🌎 O PROBLEMA NÃO COMEÇA NO DIA DO SURTO
Talvez uma das reflexões mais importantes da entrevista seja justamente esta: o cuidado não deveria começar somente quando tudo já chegou ao limite.
Saúde mental também envolve prevenção.
Significa reconhecer sofrimento antes que ele se transforme em uma situação de extrema gravidade.
Significa ampliar o acesso à informação.
Significa combater o preconceito.
Significa oferecer atendimento quando a pessoa ainda consegue pedir ajuda.
E significa compreender que ninguém escolhe simplesmente acordar um dia e “ficar louco”.
🗣️ A SOCIEDADE PRECISA APRENDER A OLHAR SEM HUMILHAR
A história de Omelas, mencionada na reflexão que acompanha a entrevista, apresenta uma sociedade próspera que aceita o sofrimento de uma criança como preço para manter sua própria felicidade.
A metáfora é poderosa porque nos obriga a olhar para uma pergunta desconfortável:
Que tipo de sociedade estamos construindo quando conseguimos assistir ao sofrimento de alguém, filmá-lo, compartilhar e ainda transformar aquela dor em entretenimento?
Talvez o problema não esteja apenas em quem sofre.
Talvez esteja também na forma como nós, enquanto sociedade, aprendemos a olhar para quem sofre.
❤️ ENTRE O CELULAR E A MÃO ESTENDIDA, QUE ESCOLHA VAMOS FAZER?
A tecnologia colocou uma câmera praticamente na mão de todos nós.
Mas nenhuma tecnologia deveria retirar nossa capacidade de sentir compaixão.
Antes de gravar uma pessoa em sofrimento, talvez seja necessário lembrar que aquela cena poderia envolver alguém que amamos.
Um irmão. Uma mãe. Um filho. Um amigo. Ou até nós mesmos.
Como alerta o psiquiatra Esdras Cabus Moreira:
“O surto pode acontecer com qualquer um de nós.”
E se pode acontecer com qualquer um, ninguém deveria ser tratado como espetáculo quando estiver mais vulnerável.
⚠️ UMA QUESTÃO PARA TODOS NÓS
Quando uma pessoa está em crise, o que vale mais: conseguir um vídeo para compartilhar ou tentar preservar uma vida, uma dignidade e uma história?
Você acha que a sociedade está preparada para lidar com crises de saúde mental sem transformar o sofrimento em espetáculo?
Comente. Compartilhe esta reflexão. Levante essa discussão.
Porque o verdadeiro avanço de uma sociedade não está apenas na forma como ela trata quem está bem — mas, principalmente, na maneira como acolhe quem está atravessando seu momento mais difícil.
Papo de Artista Bahia & TV Bahia 3 — A Voz da Cultura e Fiscal do Povo.
Por: Nilson Carvalho.
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“Porque a cultura não tem fronteiras. Onde houver um patrimônio que conte a história de um povo, o Grupo de Comunicação Papo de Artista Bahia, TV Bahia 3 e a Academia de Letras e Artes de Camaçari (ALAC) estarão presentes, mostrando ao mundo que preservar a memória é construir o futuro.”
Foto: GPABA




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