O Amor que Não Cabia em uma Lista de Compras
- Nilson Carvalho

- há 1 dia
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Seu Raimundo comprava o mesmo beijinho de coco havia oito anos.
Nunca esquecia o troco.
Nunca esquecia o sorriso de Dona Rosália.
Só esquecia de dizer o que realmente sentia.
Todas as manhãs, ele chegava à feira com o velho caderno de capa azul debaixo do braço. Comprava um único doce, agradecia com um aceno tímido e ia embora. Rosália já conhecia aquele ritual. Fingia não perceber os olhares demorados, as palavras engolidas e as páginas que ele insistia em preencher, como se escrever fosse mais fácil do que amar.
A cidade, porém, parecia viver outra realidade.
As vitrines, as redes sociais e os aplicativos vendiam a ideia do amor perfeito: casais impecáveis, viagens cinematográficas, declarações ensaiadas e promessas de felicidade instantânea. O coração havia se transformado em mercadoria. Escolhia-se, trocava-se e descartava-se como quem faz compras em um supermercado.
Dona Rosália apenas sorria enquanto enrolava os doces.
— Hoje em dia o amor é como pão fresco — dizia. — Escolhem o mais bonito e, quando amanhece duro, jogam fora. Quem quer algo que dure precisa colocar a mão na massa.
Naquela manhã, uma jovem jornalista chegou à feira.
Chamava-se Lua.
Recebera a missão de produzir uma reportagem sobre "as pequenas histórias que ninguém mais enxerga". Caminhou entre barracas, fotografou frutas, conversou com feirantes e, ao perceber a rotina silenciosa entre Rosália e Raimundo, ligou o gravador.
— A senhora acredita que ainda existe amor de verdade?
Rosália limpou as mãos no avental antes de responder.
— Minha filha, as pessoas confundem amor com sorte. Amor não cai do céu. Amor é igual levantar uma casa: um tijolo de cada vez. Quando aparece uma rachadura, a gente conserta. Quando o vento sopra forte, a gente segura firme.
Ela fez uma breve pausa.
— Cuidei do meu marido até o último dia da vida dele. Antes disso, foi ele quem cuidou de mim. Amor nunca foi espetáculo. Sempre foi presença.
Então olhou para Raimundo e sorriu.
— E esse homem passa aqui todos os dias há oito anos. Compra o mesmo doce, escreve nesse caderno e nunca teve coragem de pedir para ficar mais cinco minutos.
Raimundo respirou fundo.
Pela primeira vez, abriu o caderno diante de alguém.
Lua esperava encontrar poemas rebuscados ou frases copiadas de livros famosos.
Não havia nada disso.
Nas páginas amareladas estavam escritas pequenas observações do cotidiano.
"Hoje ela sorriu para uma criança que não tinha dinheiro."
"Arrumou o cabelo com a mão cheia de farinha."
"Acho bonito quando ela canta baixinho enquanto faz cocada."
"Gostaria de levá-la para ver o pôr do sol, como sonhava quando era jovem."
Com a voz embargada, ele finalmente falou.
— Passei a vida inteira acreditando que o amor precisava ser grandioso... cheio de fogos, músicas e declarações. Mas descobri que amor é outra coisa.
Olhou nos olhos de Rosália.
— Amor é aparecer. Todos os dias. Mesmo quando ninguém aplaude. Mesmo quando não existe festa. Mesmo quando a vida pesa.
O silêncio tomou conta da barraca.
Lua abaixou o gravador.
Naquele instante, percebeu que nenhuma pergunta seria maior do que a resposta que acabara de ouvir.
Rosália pegou delicadamente o caderno.
Passou os dedos sobre a caligrafia torta e deixou escapar uma lágrima.
Sorriu.
— Você é um grande tolo, Raimundo.
Ele baixou a cabeça.
Ela segurou sua mão.
— Oito anos gastando papel... quando bastava ter segurado minha mão. Mas ainda há tempo. O sol continua nascendo todos os dias.
— Vamos vê-lo juntos hoje?
Na semana seguinte, quem passava pela feira encontrava uma cena diferente.
Atrás da barraca de doces havia dois aventais pendurados.
Raimundo aprendera a fazer cocadas, beijinhos e quindins.
Rosália descobrira que dividir o trabalho tornava os dias mais leves.
Na última página do velho caderno, Raimundo escreveu, com letras grandes e firmes:
"O amor não é aquilo que você encontra. É aquilo que você decide cuidar, todos os dias."
Na redação, Lua apagou o título que havia preparado.
Em vez de escrever "Romance na terceira idade", publicou apenas:
"Ainda existem pessoas que escolhem amar todos os dias."
Naquele dia, ela entendeu que algumas histórias não existem para render manchetes.
Existem para devolver esperança.
E talvez essa seja a maior notícia que o mundo anda precisando.
Por Nilson Carvalho
Cronista do Jornal Papo de Artista Bahia





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