ILHA DE ITAPARICA: DO PARAÍSO AO MEDO — QUANDO O SILÊNCIO VIRA LEI E O POVO VIRA REFÉM
- Nilson Carvalho

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Por: Nilson Carvalho | Papo de Artista Bahia
Por décadas, a Ilha de Itaparica foi vendida ao mundo como refúgio, descanso, alegria e tradição. Um pedaço do paraíso cercado pelas águas da Baía de Todos-os-Santos, onde o tempo parecia correr mais devagar. Mas a realidade que hoje emerge das ruas, vielas, praias e povoados da maior ilha marítima do Brasil é dura, assustadora e revoltante: o medo tomou conta, o silêncio virou regra e o povo passou a viver refém do crime organizado.
A equipe do Papo de Artista Bahia esteve na ilha a passeio e ouviu relatos que não aparecem nos folders turísticos. O que impera não é mais só o som do mar — é o barulho do medo. Pessoas com receio de falar, comerciantes evitando comentários, moradores repetindo a mesma frase, quase sussurrada:
“Aqui virou o inferno, minha filha.”
Duas ilhas em uma só
Itaparica hoje vive uma contradição cruel. Para turistas e veranistas, ainda é praia, festa, verão e lazer. Para muitos moradores, principalmente das áreas periféricas, é convivência diária com facções, tráfico de drogas, homens armados e a temida “lei do silêncio”.
Facções como Comando Vermelho (CV), Bonde do Maluco (BDM) e Primeiro Comando da Capital (PCC) disputam território em um espaço estratégico, com poucas rotas marítimas fiscalizadas, manguezais que facilitam fugas e uma posição privilegiada entre Salvador, Recôncavo e litoral sul da Bahia.
Não se trata apenas de criminalidade comum. Trata-se de controle territorial, intimidação social e poder paralelo.
O povo no meio do fogo cruzado
No Cone Sul da ilha — Aratuba, Berlinque, Tairu e regiões próximas — o domínio do CV é visível, explícito e marcado até em muros e postes. Em Mar Grande, principal porta de entrada da ilha, o BDM exerce forte influência. Já no Alto do Riachinho, o PCC também marca presença.
O resultado disso tudo?
➡️ Desaparecimentos sem solução
➡️ Execuções
➡️ Jovens armados circulando livremente
➡️ Moradores impedidos de circular
➡️ Medo de falar, medo de denunciar, medo de viver
O caso do jovem Daniel Araújo Gondim, desaparecido há meses, simboliza a dor de famílias que não têm respostas, apenas angústia.
Onde está o Estado?
Essa é a pergunta que ecoa nas ruas da ilha — e que não ofende ninguém. Perguntar não é crime. O silêncio, sim, mata.
O governador Jerônimo Rodrigues precisa ouvir esse grito. A redação do Papo de Artista Bahia foi inundada por denúncias, relatos e pedidos de socorro. O povo quer saber:
O que está sendo feito, de fato, para devolver a segurança à população?
Até quando comunidades inteiras vão viver reféns do medo?
Não se trata de discurso político vazio, mas de vida real, de pais, mães, trabalhadores, jovens e idosos que já não se sentem seguros nem para ir à padaria.
Turismo não sobrevive onde reina o medo
Sem segurança, não há turismo sustentável.
Sem segurança, não há desenvolvimento.
Sem segurança, não há dignidade.
A Ilha de Itaparica não pode ser abandonada à própria sorte. Operações policiais são importantes, mas não bastam. É preciso presença permanente do Estado, políticas públicas, inteligência, prevenção e proteção real ao cidadão comum — aquele que só quer trabalhar e voltar vivo para casa.
Até quando?
A Bahia está pedindo socorro.
Itaparica está gritando.
E o povo não aguenta mais viver calado.
Quando o medo manda, a democracia sangra.
Fale, denuncie, compartilhe. O silêncio também mata.
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