A República das Laranjas e o Salto da Lealdade
- Nilson Carvalho
- há 20 minutos
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Uma crônica sobre poder, ambição e ingenuidade
Na distante República das Laranjas, onde promessas floresciam em época de eleição e desapareciam logo após a apuração dos votos, o Presidente resolveu consultar seu mais influente estrategista, o famoso Ministro das Soluções Improváveis.
Queria saber qual seria a grande jogada capaz de incendiar a campanha e dominar todas as manchetes.
O ministro, que se julgava uma mistura de Maquiavel, mágico de circo e vendedor de elixires milagrosos, respondeu sem hesitar:
— Excelência, chegou a hora de mostrar ao povo que sua liderança inspira confiança absoluta. Mande seu mais dedicado escudeiro, conhecido como Cavaleiro da Fidelidade, saltar de paraquedas sobre o Palácio do Amanhã, ao nascer do sol, espalhando milhares de panfletos com sua imagem. Não existe propaganda mais eficiente do que um espetáculo.
O Presidente sorriu satisfeito.
— Magnífico! É exatamente o tipo de marketing que faz o povo esquecer os problemas.
No dia marcado, já diante da aeronave, abraçou o fiel companheiro e disse, emocionado:
— Assim que você pousar, um carro oficial estará esperando para levá-lo ao Palácio. Tomaremos juntos um café da manhã e celebraremos esse momento histórico.
O escudeiro embarcou com os olhos brilhando. Pela primeira vez acreditava que deixaria de ser apenas um coadjuvante para ocupar um lugar na História, ainda que permanecesse à sombra do líder que tanto admirava.
O avião ganhou altitude.
As portas se abriram.
O salto foi perfeito.
Milhares de panfletos coloriram o céu como folhas levadas pelo vento.
Então veio o momento decisivo.
Ele puxou a corda do paraquedas.
Nada.
Tentou novamente.
Nada.
Respirou fundo e puxou pela terceira vez.
Absolutamente nada.
Enquanto o chão se aproximava em velocidade assustadora, ainda encontrou forças para rir da própria ingenuidade:
— Só falta agora o carro oficial também não aparecer...
Dizem que o poder revela o caráter. Outros afirmam que apenas expõe aquilo que sempre esteve escondido.
A verdade é que existem pessoas que confundem lealdade com garantia de reconhecimento e descobrem, tarde demais, que, para certos líderes, aliados são como panfletos de campanha: cumprem sua função durante a eleição e depois são levados pelo vento.
Na República das Laranjas, essa história virou lenda.
Mas quem observa atentamente a política sabe que lendas, às vezes, se parecem demais com a realidade.
E talvez por isso um velho sábio tenha deixado uma reflexão que continua atual:
"Quem entrega o próprio destino às promessas do poder pode descobrir, tarde demais, que era apenas parte do espetáculo."

Por Nilson Carvalho
Jornalista | Cronista | CEO do Grupo Papo de Artista Bahia
