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A República das Laranjas e o Salto da Lealdade



Uma crônica sobre poder, ambição e ingenuidade

 

Na distante República das Laranjas, onde promessas floresciam em época de eleição e desapareciam logo após a apuração dos votos, o Presidente resolveu consultar seu mais influente estrategista, o famoso Ministro das Soluções Improváveis.

 

Queria saber qual seria a grande jogada capaz de incendiar a campanha e dominar todas as manchetes.

 

O ministro, que se julgava uma mistura de Maquiavel, mágico de circo e vendedor de elixires milagrosos, respondeu sem hesitar:

 

— Excelência, chegou a hora de mostrar ao povo que sua liderança inspira confiança absoluta. Mande seu mais dedicado escudeiro, conhecido como Cavaleiro da Fidelidade, saltar de paraquedas sobre o Palácio do Amanhã, ao nascer do sol, espalhando milhares de panfletos com sua imagem. Não existe propaganda mais eficiente do que um espetáculo.

 

O Presidente sorriu satisfeito.

 

— Magnífico! É exatamente o tipo de marketing que faz o povo esquecer os problemas.

 

No dia marcado, já diante da aeronave, abraçou o fiel companheiro e disse, emocionado:

 

— Assim que você pousar, um carro oficial estará esperando para levá-lo ao Palácio. Tomaremos juntos um café da manhã e celebraremos esse momento histórico.

 

O escudeiro embarcou com os olhos brilhando. Pela primeira vez acreditava que deixaria de ser apenas um coadjuvante para ocupar um lugar na História, ainda que permanecesse à sombra do líder que tanto admirava.

 

O avião ganhou altitude.

As portas se abriram.

O salto foi perfeito.

 

Milhares de panfletos coloriram o céu como folhas levadas pelo vento.

 

Então veio o momento decisivo.

Ele puxou a corda do paraquedas.

Nada.

Tentou novamente.

Nada.

Respirou fundo e puxou pela terceira vez.

Absolutamente nada.

 

Enquanto o chão se aproximava em velocidade assustadora, ainda encontrou forças para rir da própria ingenuidade:

 

— Só falta agora o carro oficial também não aparecer...

 

Dizem que o poder revela o caráter. Outros afirmam que apenas expõe aquilo que sempre esteve escondido.

 

A verdade é que existem pessoas que confundem lealdade com garantia de reconhecimento e descobrem, tarde demais, que, para certos líderes, aliados são como panfletos de campanha: cumprem sua função durante a eleição e depois são levados pelo vento.

 

Na República das Laranjas, essa história virou lenda.

 

Mas quem observa atentamente a política sabe que lendas, às vezes, se parecem demais com a realidade.

 

E talvez por isso um velho sábio tenha deixado uma reflexão que continua atual:

 

"Quem entrega o próprio destino às promessas do poder pode descobrir, tarde demais, que era apenas parte do espetáculo."


 

Por Nilson Carvalho

 

Jornalista | Cronista | CEO do Grupo Papo de Artista Bahia

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