A inteligência artificial entrou na escola. Mas quem entrou para cuidar do professor?
- Dra. Estelita Cristo

- há 14 minutos
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Há uma pergunta que quase ninguém está fazendo:
Enquanto todos discutem plataformas, algoritmos, aplicativos e inteligência artificial, quem está olhando para o professor que precisa conduzir essa transformação?
A tecnologia chegou rapidamente às escolas. Em muitos lugares, chegou antes da formação, antes do suporte pedagógico e antes de qualquer conversa verdadeira com quem está diariamente dentro da sala de aula.
Entregaram sistemas, criaram cobranças, multiplicaram relatórios e disseram ao professor:
Agora, adapte-se.
Mas quem o ensinou?Quem acolheu seus medos?Quem lhe deu tempo para estudar, experimentar e até errar?
O professor, que já enfrentava salas cheias, dificuldades de aprendizagem, conflitos familiares, inclusão sem estrutura e episódios de violência, passou a carregar uma nova angústia: a sensação de que precisa competir com uma máquina.
E essa sensação precisa ser enfrentada com urgência.
O aluno chega cheio de conteúdo. Mas conteúdo não é conhecimento.
Nunca tivemos tantas informações disponíveis. Em poucos segundos, um estudante pode encontrar respostas, produzir textos, criar imagens e apresentar argumentos aparentemente bem elaborados.
Mas uma resposta bonita pode estar errada.Um texto convincente pode esconder preconceitos.Uma informação repetida milhares de vezes podem continuar sendo falsa.
Conhecimento exige contexto, interpretação, dúvida, investigação, ética e consciência.
É nesse ponto que a presença do professor se torna ainda mais necessária.
A inteligência artificial pode organizar palavras. Mas é o educador quem ajuda o estudante a compreender o mundo. A máquina oferece respostas; o professor ensina a fazer perguntas. O algoritmo identifica padrões; o professor percebe silêncios, medos, talentos e necessidades que nenhum sistema consegue medir completamente.
Por isso, a tecnologia não deve diminuir a autoridade intelectual do professor. Deve fortalecê-la.
Inovação não pode significar abandono. Defendemos uma ideia simples, mas profundamente necessária:
A escola não pode se tornar tecnologicamente moderna e emocionalmente desumana. A inteligência artificial precisa ser uma aliada do professor, e não uma ameaça à sua autoria, ao seu conhecimento ou à sua dignidade profissional.
Não é aceitável implantar ferramentas digitais sem formação prévia, acompanhamento permanente e avaliação dos impactos sobre a saúde emocional dos educadores.
Não é inovação quando o professor recebe uma plataforma sem saber como utilizá-la. Não é modernização quando a tecnologia aumenta a carga de trabalho, invade o tempo de descanso e transforma cada dificuldade em culpa individual.
O professor não pode ser responsabilizado pela ausência de estrutura do sistema.
As leis existem. O cuidado precisa chegar à escola. A legislação brasileira oferece fundamentos importantes para essa proteção.
A Lei nº 14.681/2023 instituiu uma política de bem-estar, saúde, qualidade de vida e valorização dos profissionais da educação. A Lei nº 14.819/2024 estabeleceu a atenção psicossocial nas comunidades escolares. A Lei nº 13.935/2019 determinou a presença de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica.
A própria LDB assegura formação continuada e condições adequadas de trabalho. Já a Política Nacional de Educação Digital determina que a inclusão tecnológica seja acompanhada de capacitação e desenvolvimento profissional.
Esses direitos não podem permanecer apenas nos documentos.
Uma palestra isolada não cuida da saúde mental. Um curso rápido não prepara o professor para uma mudança tão profunda. Um manual enviado por mensagem de WhatsApp, não substitui o acompanhamento pedagógico.
É preciso transformar a lei em presença, escuta e proteção.
O professor não precisa de mais uma cobrança. Precisa de uma rede de apoio.
Há educadores que se sentem sozinhos, desautorizados e ameaçados no exercício de sua profissão.
Alguns enfrentam agressões verbais, exposição nas redes sociais e cobranças fora da jornada de trabalho. Outros vivem a insegurança de receber trabalhos inteiros produzidos por inteligência artificial sem possuir orientação institucional sobre avaliação, autoria ou ética digital.
Quando a escola não oferece suporte, o professor começa a duvidar do próprio valor.
É exatamente nesse momento que a política pública precisa estar ainda mais presente, não para aumentar a fiscalização, mas para proteger, orientar e devolver segurança a quem ensina.
Professor Seguro, na Era Digital. Eu defendo a construção de uma política pública permanente, fundamentada em cinco compromissos:
Formação dentro da jornada de trabalho, com atividades práticas sobre inteligência artificial, autoria, avaliação, ética, proteção de dados e combate à desinformação.
Acolhimento emocional contínuo, com atendimento psicológico, grupos de escuta e ações de prevenção ao esgotamento profissional.
Assessoria pedagógica e tecnológica presente nas escolas, acompanhando o professor na realidade concreta da sala de aula, em vez de apenas encaminhar vídeos e manuais.
Proteção da autoridade profissional, com protocolos claros contra ameaças, assédio, violência, exposição indevida e desautorização.
Direito à desconexão, estabelecendo limites para mensagens, relatórios, plataformas e cobranças fora do horário de trabalho.
Nenhuma ferramenta deveria ser implantada sem ouvir os educadores, oferecer formação prévia, garantir suporte técnico, proteger os dados e avaliar o impacto sobre a carga de trabalho.
Minha trajetória foi construída dentro da educação, na sala de aula, na gestão, na formação docente e no enfrentamento das dificuldades que não aparecem nos relatórios oficiais.
Como pedagoga, psicopedagoga e pesquisadora da educação, compreendo que nenhuma transformação será verdadeira se o professor for tratado apenas como executor de decisões tomadas longe da escola.
Não me posiciono contra a inteligência artificial. Posiciono-me contra uma modernização que deixa pessoas para trás.
Eu acredito na tecnologia que amplia possibilidades, mas acredito ainda mais no professor que transforma informação em conhecimento, medo em coragem e dificuldade em aprendizagem.
O debate sobre inteligência artificial não é apenas tecnológico. É humano.
É sobre o tipo de escola que desejamos construir e sobre como estamos tratando aqueles que sustentam essa escola todos os dias.
Antes de perguntar se o professor está preparado para o futuro, talvez seja necessário perguntar:
O poder público está preparado para cuidar do professor? Inspirada no humanismo de Charles Chaplin e na educação sensível de Rubem Alves, deixo esta reflexão:
Que nenhuma máquina nos faça esquecer que a vida precisa de humanidade e que nenhum professor perca a alegria de ensinar por ter sido abandonado justamente quando mais precisava ser cuidado. A tecnologia pode mudar as ferramentas, mas somente a escuta transforma pessoas. Escutar muda tudo.
Por: Estelita Cristo
Drª Ciência da Educação| Psicopedagoga Clínica e institucional




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