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🚨 A DEFICIÊNCIA QUE O CALENDÁRIO NÃO ENXERGA

há 2 horas
3 min de leitura



Quando setembro termina, a luta por dignidade continua

 

Que sociedade é esta que precisa marcar no calendário o dia de alguém para reconhecer aquilo que deveria enxergar durante o ano inteiro?

 

Aproxima-se o 21 de setembro, data dedicada à pessoa com deficiência. Mais uma vez, surgirão campanhas, discursos, cartazes, fotografias e palavras capazes de emocionar até quem costuma esquecer o assunto no dia seguinte.

 

Por algumas horas, a diferença ganha holofotes.

Depois, o calendário vira a página.

A vida, não.

 

Quem vive com uma deficiência conhece a areia movediça. Um passo em falso pode ser o suficiente para afundar em um mundo construído sem sua participação. A barreira nem sempre está no corpo. Muitas vezes, está na calçada, na escola, no emprego, na tecnologia, no transporte, na informação e, sobretudo, no olhar de quem confunde diferença com incapacidade.

 

O preconceito também se modernizou. Já não precisa gritar. Aprendeu a sorrir, usar palavras bonitas e participar de campanhas de inclusão.

 

A inclusão, por sua vez, ganhou espaço no vocabulário social. Para alguns, tornou-se direito. Para outros, permanece um luxo cuidadosamente administrado. Há quem a transforme em obrigação burocrática e há quem descubra, nas necessidades alheias, uma oportunidade para faturar em nome da própria solidariedade.

 

Que ironia: até a dificuldade humana pode encontrar mercado.

 

Mas inclusão não é colocar uma pessoa dentro de um espaço e considerar a missão cumprida.

 

É permitir que ela participe, escolha, aprenda, trabalhe, circule, produza, ame, erre, acerte e ocupe o mundo sem precisar agradecer pelo mínimo.

 

Então surge outra questão:

 

O que significa abrir uma porta quando o caminho até ela continua cheio de obstáculos?

 

Uma rampa não resolve uma atitude preconceituosa. Um recurso tecnológico não substitui uma oportunidade. Uma legenda não garante compreensão. Uma vaga de emprego não significa pertencimento.

 

Um discurso sobre diversidade pode ser apenas uma moldura bonita para uma realidade estreita.

 

Incluir exige mais do que boa vontade.

Exige mudança.

 

E mudança incomoda porque mexe naquilo que sempre pareceu normal para quem nunca precisou enfrentar a barreira.

 

Talvez seja aí que esteja o ponto mais delicado: não somos iguais.

Ainda bem.

 

Somos diferentes na aparência, na história, no corpo, na maneira de perceber o mundo, nas experiências e nas possibilidades. A igualdade que merece ser defendida não exige uniformidade. Ela exige dignidade.

 

Quem disse que ser diferente deveria significar valer menos?

Há pessoas que enxergam e não percebem.

Há quem escute e não ouça.

 

Há quem caminhe com facilidade, mas nunca atravesse a distância que o separa do outro.

 

Existem limitações visíveis.

Outras usam silêncio, indiferença e arrogância como disfarce.

 

A deficiência física, sensorial, intelectual ou múltipla pode fazer parte de uma vida. Já a deficiência de caráter, de empatia e de humanidade não costuma aparecer em laudo algum.

 

E talvez seja por isso que falar sobre deficiência seja, no fundo, falar sobre todos nós.

Porque ninguém atravessa a existência sem alguma falta.

Há quem carregue uma ausência.

Há quem carregue um excesso.

Há quem precise de apoio para andar.

Há quem precise de coragem para continuar.

Há quem tenha um corpo considerado perfeito e uma vida interior em ruínas.

 

Em algum momento, todos dependemos de alguém.

 

Por que, então, transformamos a necessidade do outro em motivo de constrangimento?

 

O problema nunca foi simplesmente existir uma diferença.

 

O problema começa quando a diferença passa a determinar quem pode entrar, quem pode permanecer, quem pode trabalhar, quem pode aprender, quem pode amar e quem deve esperar.

 

O calendário pode reservar um dia para a pessoa com deficiência.

 

A dignidade não deveria ter data.

 

Quando setembro chegar novamente, haverá discursos. Alguns serão sinceros. Outros terão o brilho passageiro das vitrines.

 

Que sejam bem-vindos os discursos, desde que não terminem neles.

 

Porque inclusão não se mede pelo tamanho da campanha, pela quantidade de fotografias ou pela beleza das palavras.

 

Mede-se pelo espaço que deixamos para o outro existir sem pedir licença para ser humano.

 

No fim, resta uma pergunta que nenhuma campanha consegue responder por nós:

 

Quando o calendário deixar de falar sobre inclusão, o que permanecerá de verdade na vida de quem ainda espera por ela?

 

Autor: Carlos Santa Rita - Web Radio Litoral Arembepe

Foto: GPABA

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